terça-feira, 21 de maio de 2013

"Catalogue de l'Exposition Blueberry by Gir"





LA 
MAISON 
DE LA 
BANDE 
DESSINÉE



Exposition 
Blueberry by Gir

De 15 de janeiro a 14 de junho de 2009

Nós desejamos agradecer a Isabelle e Jean Giraud 
pela sua preciosa colaboração.

Todas as obras expostas provêm de coleções privadas.
Nós agradecemos calorosamente a todas as pessoas 
que contribuíram para essa exposição.

A série “Blueberry” foi criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud.
Todas as imagens extraídas dos álbuns “Blueberry” são 
© Dargaud, Giraud, Charlier.
Esboço da capa por Christophe Fumeux.



É um cowboy solitário longe de seu lar. No mítico far-west, entre os casacas azuis e os peles-vermelhas, os bêbados pés-inchados e as moças de vida ruim, ele passeia seu ideal nos saloons mal-afamados e nas grandes planícies desérticas, estando ele, hostil a toda forma de autoridade estabelecida e de violência gratuita, a serviço da viúva e do órfão. Bloody Hell! Seria ele Lucky Luke? Demais polido. John Wayne? Demais real! Mais irreverente e menos tridimensional, está bem próximo do famoso tenente Mike “Blueberry” Donovan, o herói do western criado por Jean-Michel Charlier (1924-1989) e desenhado por Jean Giraud. Referência do gênero após mais de 45 anos, essa figura doravante incontornável dos clássicos das histórias em quadrinhos franco-belga conhece uma aventura editorial exemplar. Gira sobre uma série que viceja bem o cavalo e a poeira...



BLUEBERRY BY GIR

O western como uma manifestação

Os dois homens têm vários pontos comuns, como suas viagens ao Oeste americano, sua fascinação pelo gênero western, um desenho muito detalhado... ...e mesmo suas iniciais que impedirá Giraud de utilizar as suas, daí o pseudônimo “Gir”. Ele admira o estilo e a obra do mestre, mas o desejo de voar com suas próprias asas acabará por levá-lo.

Era um jovem homem de apenas 25 anos que entrou para a revista francesa “Pilote”, em 1963. Ele foi solicitado pelo genial roteirista Jean-Michel Charlier, então diretor da revista, para um projeto de western. Deve ser dito que o pequeno Jean foi alimentado toda sua vida. As grandiosas paisagens do Oeste americano atingem sua imaginação, e o cinema da época fez o resto. Embora... ...um certo Joseph Gillain, dito Jijé, teve igualmente forte influência sobre sua obra. Durante um ano, Giraud trabalhou em seu estúdio, o auxiliando em uma série que foi a precursora do westen moderno, “Jerry Spring”.

Era então a idade de ouro dos grandes westerns hollywoodianos sobre a grande tela. O tema se impõe como uma manifestação. Ele veiculou toda uma imagem clássica com os cavalos, o confronto entre os índios e os brancos, os colonos e os militares, os jogadores de pôquer, as mulheres fáceis, os foras da lei, o herói estereotipado, cavalheiresco, mas também a nostalgia de uma sociedade e de uma civilização desaparecidas, a beleza de uma vida selvagem em grandes espaços. “Blueberry” é uma história em quadrinhos que se endereça aos jovens (e aos menos jovens!), amantes de perseguições infernais, de tiroteios desencadeados e de “happy end” moralizadores, tudo sobre o fundo do deserto plantado de cactos sob um sol ardente. O sucesso aconteceu rapidamente.

Portanto, o tema não era novo, e conhecera uma pletora de novos personagens nessa época. Já, “Jerry Spring” e “Blueberry” não eram mais os solitários cowboys de papel da publicação franco-belga. Citações, entre outros, “Lucky Luke” de Morris (1946) e “Chick Bill” de Tibet (1953). Mas, eles vão gerar seguidores e logo estarão reunidos a “Les Tuniques Bleues” de Cauvin e Salvérius (1968), “Comanche” de Hermann e Greg (1969), “Buddy Longway” de Derib (1972), “Jonathan Cartland” de Blanc-Dumont e Harlé (1974), “Durango” de Swolfs (1981)... O western, em cinema como em histórias em quadrinhos, nunca foi tão bem sucedido quanto nos anos 50-70. Não se admira que Blueberry tivesse tomado traços de um ator francês então muito em voga, Jean-Paul Belmondo.





Um cowboy fora da estrada


A escolha do western impôs automaticamente os clichês, um enquadramento pré-definido. Foi um mito que não sofreu de ser mal conduzido em seu contexto histórico e seu ambiente natural. Desse ponto de vista, se pode dizer que efetivamente, ao Oeste, nada de novo. Os índios lutam para conservar o seu modo de vida, enquanto que os brancos colonizadores tentam impor o seu. A cavalaria chega sempre a tempo, e o herói tem sempre a última palavra. Mas Jijé, com seu “Jerry Spring”, irá introduzir um vento de liberdade. Seu herói procurará compreender os índios ao invés de aniquilá-los, e seu queixo não está sempre impecavelmente barbeado. Foi o suficiente! O novo western era nascido. E “Blueberry” se beneficiará ao fundo.

Giraud vai assim sair dos caminhos batidos fazendo evoluir o gênero. Graças ao roteiro de Jean-Michel Charlier, seu herói não terá a aparência polida de Lucky Luke ou de Jerry Spring: “O personagem do “herói” foi imposto a mim, a nós, como anti-herói no sentido western do termo. O cinema nos habitou a esses libertinos, esses perdidos simpáticos que vivem as aventuras heróicas um pouco a despeito de si mesmos. Nas histórias em quadrinhos, foi diferente: esse tipo de personagem não existia ainda, alguém que fosse reparador de injustiças se divertindo com o colt para defender a ordem... como eu não sabia reanimar esse gênero de personagem, eu me lembrei desses tipos que haviam me falado nos Estados Unidos da América, esses autênticos cabeças quentes, esses “inúteis soldados” que o Exército se desembaraçava os enviando à última fronteira dos vilarejos perdidos do Oeste....


Visando um realismo puro, Gir mostrará as qualidades e os defeitos de todos em um. Blueberry jogará (trapaceando!), embebedar-se-á, mentirá, jurará, seduzirá! Ele se tornará imundo, desertor e arruína as faces em rixas sórdidas... ...mas, pela boa causa, evidentemente! Foi um soco no mundo então politicamente correto das histórias em quadrinhos. Os “Caramba!” “Bando de condenados ao álcool!” “Fígado amarelo!” chovem em cada página. Ele atua do gentil ao bruto. Os personagens tornam-se humanos, críveis, seus caracteres evoluem, eles não são mais unicamente bons ou unicamente maus. Os métodos do tenente assemelham-se àqueles de seus adversários, mas, sua vulnerabilidade, seu humor e seu cinismo fazem-no simpático ao leitor.


Isso que nós temos levado ao ícone do cowboy da HQ, foi a humanidade de Blueberry. Eu não queria um herói sem medo e sem censura, ele devia ter as suas falhas, suas hesitações e seus sofrimentos... e a barba por fazer!”. (Giraud)



Mister Mœbius
Jean Giraud tenta esquivar-se a seu destino inventando um duplo eu: Mœbius. Alimentando duas paixões, o western e a ficção científica, cativado, na ocasião, pela 9ª arte, mas também pela pintura, ele leva experiências gráficas e narrativas que lhe permite – financeiramente falando – o sucesso de Blueberry: “Blueberry sempre será o patrocinador de minhas obras.”.
Muito eclético em seu desenho e seu propósito, o Mœbius de “Arzach”, “L’Incal” (roteiro de Jodorowsky) ou “Le Monde d’Edena”, se aventura nos caminhos da ficção científica, enquanto que o Giraud de “Blueberry” acompanha seu cow-boy a um ritmo regular: do total, 32 álbuns lançados em 45 anos!




Arrebentadas as etiquetas! A HQ entra na vida real e isso longe de ser simples. Cada um com uma boa razão para conduzir o seu combate. Ao leitor de tomar partido. Ele é distante, a história em quadrinhos tradicional ou o bom partido se imporia por ele mesmo.

O estilo do novo western não procura destruir um estereótipo, mas, a reatualizá-lo. Blueberry é um herói da sua época. Ele se emancipa, mas, prudentemente. Se ele tenta dialogar com os índios, isso para fazer-lhes aceitar, de maneira honrosa, a cultura dos brancos. Salvo exceção, as mulheres são as mais frequentemente relegadas a um papel menor e decorativo. Blueberry não coloca em questão a sociedade na qual ele evolui. A série faz, portanto, os esforços, ela evolui, se moderniza, mas, os autores devem se curvar a certas restrições: o western permanece o western!


O estilo Gir

A realização de um “Blueberry” é uma verdadeira ascese, uma disciplina. É um trabalho terrível que demanda uma exigência máxima. Para cada quadrinho, ele fez refinar a composição, a luz, a anatomia....

E para refinar, ele refina! Sente-se bastante toda a influência de Jijé por trás desse traço exigente, porquanto realista. Numerosos são aqueles que reconhecem em Giraud o principal herdeiro de Jijé. Longe do pincel redondo e paródico de Morris, Giraud coloca um ponto de honra em ser crível a fim de dar vida a um mundo desaparecido: um álbum de Blueberry representa um ano de trabalho! Assim como Jijé, Giraud trabalha muito sobre documentação: “À estréia de Blueberry, eu experimentei de ter frequentemente um cavalo feito sobre documentação por página..

Charlier teria tido dificuldade na estréia pela semelhança demais latente de seu traço com aquele de Jijé. De fato, quando Giraud parte para os Estados Unidos em 1964, depois em 1965, Jijé o substitui em várias páginas de “Tonnerre à l’Ouest” (pranchas 28 a 36) e de “Cavalier Perdu” (pranchas de 17 a 38): é difícil para um não iniciado perceber a passagem de mãos. Mas, Giraud terminará por matar o pai: “Eu queria romper o sistema Joseph (Gillain). Eu incluía em meu trabalho aquilo que ele havia me inculcado, mas eu não apreciava isso, eu me arriscava a apoiar meus defeitos. No fundo da caixa. Da simplicidade à riqueza no detalhe, a sobre-informação gráfica. Uma verdadeira provocação. Isso nunca foi dirigido contra ele, mas contra o aspecto demais polido de seu desenho que não podia alcançar..

Giraud depressa encontra seu próprio estilo, como demonstra a utilização de hachuras e de pontos a fim de dar mais profundidade e relevo a seus rostos e seus cenários. A utilização do pincel é uma herança de Jijé, mas Giraud se ajunta à pena para dar uma terceira dimensão ao seu desenho. Giraud exacerba o realismo jijéano a um ponto tal que os próprios estadunidenses o reconhecem como o melhor desenhista de western do mundo! Mas, o preço a pagar é uma disciplina de ferro que ele fez manter em cada quadrinho.

Essa disciplina, Charlier a segue escrupulosamente para o roteiro. O desenho e a escritura se conciliam perfeitamente sobre esse ponto. “Ah! Mas assim era Charlier: ele construía as vidas, ele reconstituía minuciosamente o universo de Blueberry, seu passado, seu porvir, ele organizava as existências, ele dirigia a seu gosto... ele era Deus!. Mas Giraud ousa regularmente se envolver nas histórias do pai criador para operar algumas mudanças!





As estreias de Giraud

Jean Giraud nasceu na França a 8 de maio de 1938 em Fontenay-sous-Bois. Ele fez cursos de desenhos por correspondência antes de entrar na Arts Appliqués onde ele rodeou Jean-Claude Mézières e Pat Mallet. Ele passou também certo tempo nas salas de cinema: “Quando eu era jovem, eu amava o western mais que tudo. Ele causava sobre mim uma atmosfera poderosa e mágica. Quando eu comecei a desenhar Blueberry, meu desejo foi de restituir a emoção que me abraçava diante das imagens dos grandes filmes de western.” E foi um cowboy solitário longe de seu lar que cunhou sua imaginação em “bande dessinée” e a influenciará: “Morris encarnou durante alguns anos, com Lucky Luke e sua desenho insensato, minha vanguarda pessoal, tanto no plano gráfico quanto roteirístico. Eu fui realmente subjugado pela nervosidade de seu traço e por sua profunda originalidade..

Em 1956, ele começa a colaborar para “Far-West”, “Fripounet et Marisette”, “Âmes Vaillantes” e “Cœurs Vaillants”, onde ele desenha as histórias completas no gênero western e as histórias em sequência. Em 1958, por intermédio de Jean-Claude Mézières, ele tomou conhecimento de seu “mestre” Joseph Gillain (1914-1980) que lhe confiará, mais tarde, a arte-final de um episódio de “Jerry Spring” (“La Route de Coronado”) publicado em “Spirou” em 1961. “Jerry Spring” era então a referência em matéria de western realista. “Blueberry” nasceu do encontro entre dois apaixonados pelo Far West. Após um período de formação, Giraud entalha sua carreira em “Pilote” em 1963 sob o pseudônimo “Gir” desenhando “Fort Navajo”. Foi um galope de ensaio, mas, sobretudo, o primeiro episódio daquilo que iria se tornar a série “Blueberry”.











As estreias de Blueberry

Faltava a Jean Giraud um roteirista experiente. Que outro então senão Jean-Michel Charlier? “Meu primeiro encontro com Jean Giraud remonta à estréia de ‘Pilote’. Ele veio me propor uma série western, me pedindo para escrever o roteiro. Eu nunca me conduzi demais sobre o western; e então eu fiquei incomodado pela semelhança de seu desenho com aquele de Jijé.. Charlier terminará por tornar a chamar Giraud, após uma viagem reveladora aos Estados Unidos e sobre o conselho de Jijé. Começa enfim uma saga que hoje e sempre não recebe fim... ...nem uma ruga!

Uma ótima harmonia se instala entre os dois homens, se bem que muito diferentes por suas personalidade e idade. “Charlier queria contar a história de um militar em uma América triunfante, tudo aquilo que minha geração tinha horror!.





Filmografia seletiva de
Jean-Paul Belmondo
na primeira metade
dos anos 60:
- A bout de souffle (1960)
- Un singe en hiver (1962)
- Le Doulos (1962)
- L’homme de Rio (1964)
- 100.000$ au soleil (1964).





O apelido Blueberry, achado por acaso, corresponderia a um desejo bem preciso de Giraud: “Eu desejei, eu, qualquer coisa suave que seria um cara turbulento e nojento.”. Sua face, ele encontra evidentemente no cinema, baseado no ator Jean-Paul Belmondo: “Ele foi uma espécie de símbolo para os rapazes de minha idade (...) Foi uma maneira de ancorar a HQ em sua época, da saída do gueto cultural da literatura para adolescentes. Belmondo não era ainda uma star, mas ele tinha verdadeiramente um sorriso. Era um pouco nosso James Dean francês. Mais tarde, Blueberry emprestou seus traços bastante de outros atores, como Charles Bronson. Nós poderíamos também acrescentar Charlton Heston, Georges Clooney... tanto dizer que seu rosto continua a evoluir e que ele me escapa ainda.”. As semelhanças se desvanecem à proporção e à medida, e Blueberry acabará por assemelhar-se a Blueberry!

Os álbuns vão se encadear a um ritmo anual desenfreado, até ao falecimento de Charlier em 1989. Giraud torna-se então um cowboy solitário ao desaparecimento de seu amigo e roteirista: “Eu fiquei chocado. Durante mais de cinco anos, eu fiquei completamente impedido de trabalhar em ‘Blueberry’, como se eu necessitasse de um período de luto. Eu considerava esse personagem como uma criança que tinha perdido seu papai e de cujo eu teria sido a mamãe. Eu tinha a guarda do pequeno.”, Sagrada família aquela de Mike Blueberry, desde o avô Jijé ao papai Charlier!

Mas, Giraud não está em pane de idéias para seu cowboy (“Blueberry jamais esgotou minha inspiração”), mesmo se ele lamenta os roteiros sempre surpreendentes de Charlier. Ele se adapta em se concentrar diante da personalidade do seu herói. “Eu tinha a idéia de retomar a tradição narrativa de ‘Blueberry’ em tudo evitando plagiar aquilo que fez Jean-Michel Charlier. Eu considerei a sua morte como um limite roteirístico na história de Blueberry.  Totalmente no restante da ficção, eu me concentrei sobre o personagem. A história começou a se mover em tempos presentes e passados. Um passado que chamava de volta a época onde Charlier ainda vivia.”. Giraud assim, sozinho, retoma a série, sobre uma sinopse deixando por Charlier (“Arizona Love”). O desejo era muito presente, mas a confiança não era ainda total. Ele criou entrementes “Marshal Blueberry” para provar a si que podia escrever um bom roteiro. Essa primeira série paralela, desenhada por Vance (depois Rouge), se revelará finalmente decepcionante e se resumirá a uma trilogia.

A série foi, contudo, desenvolvida com sucesso graças a outras aventuras paralelas prosseguidas por diferentes desenhistas e roteiristas: “La Jeunesse de Blueberry” (N. C.: “A Juventude de Blueberry”) narra o passado do esperto tenente, enquanto que em “Marshal Blueberry”, o rebelde porta a estrela de xerife. Giraud começa em 1995 um novo ciclo, “Mister Blueberry”, no qual o herói recebe algumas rugas e dois ou três cabelos brancos. Um outro projeto de série paralela, “Blueberry 1900”, devia colocar em cena um Blueberry ainda mais idoso. Elaborada em colaboração com François Boucq (de cujo Giraud admira “Bouncer”), essa série finalmente não viu a luz.


Era uma vez no Oeste...

Na segunda metade do século XIX começam, no Oeste norte-americano, as primeiras guerras indígenas. O tenente yankee Blueberry tenta negocias a paz com os chefes índios. Mas, ele se rebela contra a autoridade tinhosa e estúpida de seus superiores, os quais gostam de enviá-lo para cumprir as missões mais perigosas.

Preso entre os casacas azuis caçadores de índios e os índios caçadores de caras-pálidas, ele vagueia de vilarejo em vilarejo, encontrando personagens nem sempre recomendáveis, todavia, cujos ele faz aliados. Ele cruza igualmente o caminho de homens ilustres tais quais o chefe apache Cochise (1812-1874), o general Ulysses Grant (1822-1885), o sulista Quantrill (1837-1865), o general George Custer (1839-1876), o impiedoso marshal Wyatt Earp (1848-1929)... Ele atravessa grandes acontecimentos como o início da Guerra de Secessão (1861), o assassinato do presidente Lincoln (1865), a construção do caminho de ferro (1863-1869); ele passa em lugares míticos como Tombstone, OK Corral (1881), a fronteira mexicana... Certas aventuras de Mike Blueberry são inspiradas em fatos e personagens reais: os cinco pontos do caminho de ferro destruídos no Leste do Tennesse no inverno de 1861, a lenda do ouro dos confederados no verão de 1869, a fuga de 300 apaches rumo ao México durante o outuno-inverno de 1871/72, a tomada de poder por Diaz no México na primavera de 1872... A ficção rodeia uma documentação muito pesquisada.

Giraud gosta de introduzir uma dose de fantasia em sua obra. Isso porque sua história em quadrinhos faz, frequentemente, fronteira com o místico. O tenente encontra os xamãs que lhe fazem compartilhar de experiências perturbadoras. Sem dúvida que o passado do jovem Jean Giraud ressurge igualmente por reminiscência. Quando da sua segunda viagem ao México, à idade de 22 ou 23 anos, Giraud teve de fato uma experiência determinante: “Eu queria viver alguma coisa... Eu aspirei cogumelos que me deram uma visão, que em seguida me deixou um pouco perturbado, dirão alguns. Eu diria mais que eles: colocou-me em algo particular, que tem determinado bastante as opções na sequência de minha carreira.". Giraud conta que o consumo de alucinógenos influenciou sua obra em geral: “A maconha tem condicionado em parte a minha atividade criativa em transtornando minha percepção do mundo.”

O resultado do filme “Blueberry, l’expérience secrete”, adaptação cinematográfica de Jan Kounen em 2004, portanto, não foi surpreendente. Muito criticado à sua estreia por seu não respeito à história em quadrinhos e seu demais cheio de místico, o longa-metragem foi, porém, apreciado por Jean Giraud pelo seu aspecto ousado e deslocado.


O novo “nouveau western”

Após Jean Giraud, outros autores experimentam o western realista: Hermann (“Comanche”), Derib (“Buddy Longway”), Blanc-Dumont (“Jonathan Cartland”), e Swolfs (com um “Durango” que se assemelha muito a Clint Eastwood).

Nos anos 90, Jean Giraud retoma o roteiro da série “Jim Cutlass”, iniciada em 1979 com J. M. Charlier, deixando o pincel a Christian Rossi. Se for certo que hoje, o western está em perda de velocidade, tanto no cinema quanto em história de quadrinhos, ele ainda tem belos dias pela frente. E a marca de Giraud se encontra frequentemente. Nós podem citar “Chinaman” (TaDuc e Le Tendre, éd. Dupuis), “Ethan Ringler” (Mezzomo e Filippi, éd. Dupuis), “Gibier de Potence” (Capuron, Duval e Jarzag, éd. Delcourt), “Trent” (Léo e Rodolphe, éd. Dargaud), “W.E.S.T.” (Rossi, Dorison e Nury, éd. Dargaud), “L’Etoile du désert” (Marini e Desberg, éd. Dargaud)... A lista não é exaustiva, mas prova que aquilo que estimulou Jijé e Giraud à época, estimula sempre o mundo da história em quadrinhos.




Mais próximo de Giraud, François Boucq parece ser um digno herdeiro do western realista com seu “Bouncer” (éd. Humanoïdes Associés). Para Giraud, é um caso a parte! “Eu era muito ciumento. Eu tinha mesmo projetado de assassiná-lo, mas como eu queria saber a sequência, eu o salvei.”.

Mesmo em jovens autores cuja obra não se assemelha forçadamente àquela de Giraud, a influência é reconhecida. Eles são ainda jovens apaixonados nos quais as inspirações e os desejos se assemelham travessamente àquelas de Jean Giraud. Isso se reconhece também nessa nova geração: “Sfar e todo seu pequeno bando me lembram um pouco aquilo que nós temos conhecido em 'Pilote', mas isso parece mais coerente. Há mais educação e maturidade por trás desses jovens autores.”. Contudo, esses adeptos do western foram amamentados na mesma mama. Notadamente, foi o caso de Christophe Blain, autor do western surrealista “La Révolte d’Hop Frog” (éd. Dargaud, 1997) e de “Gus” (éd. Dargaud, 2007), western humorístico. Muito influenciado por “Lucky Luke” em sua infância, fascinado pela imagem clássica do western, caiu no caldeirão do cinema de Clint Eastwood e de Sergio Leone, que levou, a ele também, viajante aos Estados Unidos à idade de 25 anos, para ver com seus próprios olhos o Colorado, o Arizona, o Grand Canyon, Monument Valley... “Isso realmente me comoveu. Eu sabia que tinha que escrever um western. Foi primordial, o western foi, de tal maneira, o fundador da minha imaginação.”. “Gus” nasceu dessa imaginação.

Para Blain, “Blueberry encarna o lado barroco do gênero. (...) Os roteiros de Charlier são clássicos, mas Giraud levou um vigor, uma vida que eu sentia.”. Portanto, obras radicalmente diferentes no plano gráfico, mas criadas por um mesmo impulso, um impulso íntimo e apaixonado.


O fim de Blueberry?

Jean Giraud não planeja mais enterrar seu herói com toda a série. “Blueberry não pode morrer, eu tive a certeza e a prova depois que eu li a biografia que Charlier escreveu antes de nos deixar. (...) A história de um tipo como ele não pode ter fim...”.

Charlier considerou mesmo um encontrou entre Blueberry e... Eliot Ness!

That’s all folks?

Textos: Marianne Pierre.


Bibliografia
La Jeunesse de Blueberry
(Charlier/Giraud)
1975 La Jeunesse de Blueberry
1979 Un Yankee nommé Blueberry
1979 Cavalier Bleu
(Charlier/Wilson)
1985 Les démons du Missouri
1987 Terreur sur le Kansas
1990 Le Raid infernal
(Corteggiani/Wilson)
1992 La poursuite impitoyable
1993 Trois hommes pour Atlanta
1994 Le Prix du sang
(Corteggiani/Blanc-Dumont)
1998 La Solution Pinkerton
2000 La Piste des maudits
2001 Dernier Train pour Washington
2003 ll faut tuer Lincoln
2005 Le Boucher de Cincinnati
2006 La Sirène de Veracruz
2007 100 dollars pour mourir
2008 Le Sentier des larmes
N.C.: A Dargaud Éditeur, após a publicação de “Catalogue de l’Exposition Blueberry by Gir”, lançou mais três volumes de autoria de François Corteggiani e Michel Blanc-Dumont:
2009 1276 âmes
2010 Rédemption
2012 Gettysburg
Blueberry
1965 Fort Navajo
1966 Tonnere à l’Ouest
1967 L’Aigle Solitaire
1968 Le Cavalier Perdu
1969 La Piste des Navajos
1969 L'Homme à l'étoile d'argent
1970 Le Cheval de Fer
1970 L'Homme aux poings d'acier
1971 La Piste des Sioux
1971 Général Tète Jaune
1972 La Mine de l'Allemand perdu
1972 Le Spectre aux balles d'or
1973 Chihuahua Pearl
1973 L'Homme qui valait 500.000$
1974 Ballade pour un cercueil
1974 Le Hors-la-loi
1975 Angel Face
1980 Nez Cassé
1980 La Longue Marche
1982 A Tribu fantôme
1983 La Dernière carte
1986 Le Bout de la piste
1990 Arizona Love
1995 Mister Blueberry
1997 Ombres sur Tombstone
1999 Geronimo, l’Apache
2003 O.K. Corral
2005 Dust
2007 Apaches
Marshal Blueberry
(Giraud/Vance)
1991 Sur ordre de Washington
1993 Mission Sherman
(Giraud/Rouge)
2000 Frontière sanglante

Recursos bibliográficos utilizados para a realização desse catálogo:
DBD Nº 24
DBD Nº 27
BoDoï N 65
Schtroumpfs, les Cahiers de la BD Nº 25
Mœbius, entretien avec Numa Sadoul (Casterman 1991)




Ficha Técnica

Catalogue de l’Exposition Blueberry by Gir
“Catálogo da Exposição Blueberry by Gir”
Desenhos: Jean Giraud.
Ano de lançamento: 2009.
Número de páginas: 28 (incluindo capa e contracapa).
Gênero: Western.

Formato: 14,7x21,0 cm.
La Maison de la Bande Dessinée, Bruxelas, Bélgica.

Catalogue de l’Exposition Blueberry by Gir © La Maison de la Bande Dessinée 2009



"Catalogue de l'Exposition Blueberry by Gir", quarto livro, da esquerda para a direita, em parte da minha BBteca.


Afrânio Braga


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Blueberry em "Tex. Almanacco del West 1995"

Tex Almanacco del West 1995 © SBE 1995



O Tenente Blueberry visto por Jean Giraud.


Blueberry

de Marco del Freo


VERÍAMOS ALGUÉM QUE SE CHAMA MIRTILO ameaçar um condenado brutamonte silabando uma frase do tipo “se me estás sob as unhas, te achato como um percevejo”? Não, verdade? Alguém que se chama Mirtilo não pode dizer coisas do gênero, sabemos todos. Alguém com um nome assim não pode feder a cavalo e a suor, a pólvora de disparo e a deserto: não pode assassinar ou arriscar em sê-lo a cada cinco minutos e tão menos de salvar um presidente dos Estados Unidos ou uma tribo indígena inteira. Mirtilo pode ser um cavalo, uma cor, um perfume, mas não um tenente da cavalaria estadunidense nos tempos da Guerra de Secessão, um pouco herói e um pouco trapaceiro, épico e esfarrapado. Entretanto, um tenente que se chama Mirtilo existe e é um mito do western: o criaram Jean-Michel Charlier e Jean Giraud no início dos anos 60, na França, tendo o bom-gosto de usar a versão inglesa da palavra. Blueberry e não Myrtille, por conseguinte (Mirtillo, em italiano), porque cada nome indica um caráter, uma vocação, uma história e o personagem criado por Charlier e Giraud é tão carregado de sabores e de odores americanos por não admitir cessões de nenhum tipo, nem para dar prazer aos doutos professores da Académie Française, tão ciosos da pureza da língua de Alexandre Dumas por haver apoiado recentemente a promulgação de uma lei que possa defendê-la da “invasão” estrangeira.



UMA VIDA PARA AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS


Não é fácil falar de Jean Michel Charlier em poucas linhas: a sua é de fato a biografia de um grande da editoria mundial. Não é uma afirmação exagerada, especialmente se se pensa que no mundo da comunicação recobriu quase todas as funções possíveis. De fato, não foi só roteirista, mas também desenhista e editor, jornalista e comentarista radiofônico e televisivo, autor de dramas e de reportagem investigativa... Nascido em 1924 em Liège, Charlier já tinha começado os estudos de Direito, quando percebeu que a profissão lhe seria estreita. No imediato pós-guerra, se achou a desenhar algumas pranchas didáticas para “Spirou”: em 1947, entrega para Hubinon os primeiros roteiros de “Buck Danny” (que para de escreve somente na metade dos anos ’70). Foi o início de uma aventura durada quarenta anos, vivida cotovelo a cotovelo com os mais grandes personagens das histórias em quadrinhos, francês ou não. Alguns nomes, tanto para tomar-se conta dos tantos mundos imaginários criados por Charlier: “Valhardi”, “Oncle Paul”, “Thierry”, “Simba Lee”, “La patrouille des Castors”, “Michel Tanguy”, “Barbe-Rouge”... e naturalmente o Blueberry dessas páginas. Em 1959, deu vida, juntamente com Uderzo e Goscinny, à revista culto “Pilote”, afrontando a nova aventura, porque, dizia, “ninguém queria mais nos dar trabalho quando decidimos sermos pagos melhor”. Charlier morreu em 1989.

No alto: à esquerda, Jean Michel Charlier; à direita, um quadrinho extraído de "Michel Tanguy" (desenhos de Uderzo).



EM 31 DE OUTUBRO DE 1963, NO ÁLBUM NÚMERO 210 da revista culto “Pilote”, aparecem então as primeiras pranchas de uma história em quadrinhos destinada a fazer história: em um período no qual o western cinematográfico é em fase declinante, assassinado pela arrogância monótona de heróis demais polidos, demais virtuosos, demais tudo (Sergio Leone ainda está ocupado em outros afazeres) as “bandes dessinées” mais famosas da França disparam o tenente Blueberry direto no coração dos apaixonados do gênero. Tem o rosto de Jean Paul Belmondo e também alguns traços característicos típicos dos personagens interpretados pelo então jovem e dissoluto ator francês. Limpo e perfumado como um vaqueiro depois de um mês passado em séquito de uma manada, o nosso herói se apresenta assim, após o primeiro trago: “tenho modos mais para saloon do que para salão”, “não trajo nunca o uniforme para poder jogar pôquer com toda tranquilidade”; “ou Forte Apache e os Apaches, ou ser caçado pelo exército: escolhi o Oeste”. E é sincero, contando-se assim, porque o descobriremos súbito insubordinado, beberrão, jogador, violento e notívago; mas também generoso, corajoso, inconsciente e leal. Em uma palavra, verdadeiro. Blueberry é exatamente como um leitor pensa que foi qualquer um oficial daqueles tempos. Pobre em grana, tem a única fortuna de um nome fácil para recordar, pouco importa se falso. Quando descobriremos que ele é inventado para escapar ao fuzilamento durante a Guerra de Secessão, não faremos outra coisa que apreciar uma vez mais a sua humanidade. E pois, fez bem em mudar em mudar-se nome: o seu é igualmente banal que o próprio autor, Charlier, não consegue tê-lo em mente: nos primeiros álbuns o chama de fato Steve, em seguida Mike. Só quando as cartas em redação fazem notar a incongruência, tudo será sistematizado sem demais problemas passando a um salomônico Mike S. Donovan.


  
  
À esquerda, um realístico retrato, em estilo militar, extraído 
da biografia do Tenente Blueberry (1). À direita, um quadrinho 
de "Forte Navajo" (desenhos de Jean Giraud).


SEJA COMO FOR QUE SE CHAME, O PROTAGONISTA “existe” e ao público agrada. Agrada ao menos quanto ao mundo no qual se move, feito de pequenos particulares e grandes espaços, de mesquinharias cotidianas e de gestos épicos, de aventurosas desgraças e de tediosa rotina militar. Porquanto, ainda não bem definido no desenho e no caráter, o universo de Blueberry promete desde a primeira aventura de manter-se em movimento contínuo, em crescimento constante. Já no episódio intitulado “Forte Navajo”, publicado em capítulos em “Pilote” entre 1963 e 1964, Charlier e Giraud falam de fato claro aos leitores: personagens, ambientes e intensidade narrativa são destinados a durar e a crescer com o passar do tempo. E a promessa foi mantida, como pode constatar alguém que leia a progressão dos seus ciclos nos quais é subdivida a sua saga. Nada do enorme tamanho de material que os dois generosos autores lançam em cada história foi negligenciado não os cenários, não o detalhe do particular, mas, sobretudo, não os personagens que merecem mais espaço quanto a uma primeira extensão da trama oferecida a eles. “Entenda que Giraud me chama para impelir-me a retomar algum personagem secundário”, dizia Charlier, “MacClure, por exemplo, era destinado a desaparecer e, ao invés, é tornado o fiel companheiro de Blueberry”. E assim o ritmo narrativo e as tramas de Charlier progridem no tempo de igual passo ao polir-se do traço de Giraud que se abre com segurança à marca limpa que o tornará célebre com o pseudônimo de Mœbius. Dos excessos quase caricaturais dos primeiros álbuns se passa rapidamente a um realismo impressionante. Uma história como “Forte Navajo” é ainda um tripúdio de bocas escancaradas e olhos fechados, o todo desenhado com um traço pesado que impede Giraud de respeitar juntamente o detalhe e o geral de cada quadro. Mas, o estilo já é afinado em “O Cavalo de Ferro” (1966-1967), em cujo, por exemplo, Gir (outro pseudônimo de Giraud) desenha com maestria uma carga de bisões por antologia, expressando ao melhor seja a multidão bovina, seja cada menor detalhe anatômico dos animais individualmente.


Abaixo: à esquerda, um autorretrato de Jean Giraud; à direita, uma ilustração, de ficção científica, de Giraud assinada com o pseudônimo de Mœbius.



PURO, GASOSO OU... GIRAUD?

Blueberry, John Difool, Surfista Prateado... Três épocas, três estilos, mas o mesmo desenhista, Jean Giraud. A quase esquizofrênica habilidade desse mago, de 56 anos, das histórias em quadrinhos impõe em fazer distinção, quanto menos históricos, se não estilísticos, no narrar-nos as proezas. De Giraud, de fato, nos existem ao menos três, um para cada uma das visões do mundo que nos propõe com os personagens por ele criados. A primeira estrada empreendida é essencialmente realística e aparece de súbito no seu trabalho, condensando-se de ’63 em diante, em “Pilote”, sobretudo nas histórias de Blueberry. A segunda, já menos ligada à cotidianidade, é aquela que, no mesmo período, aparece sob o nome de Jean Gir. Mas é a terceira estrada, aquela que entrega definitivamente o nome do francês não só aos apaixonados do gênero, mas a todo o público dos amantes da ficção científica. Com o pseudônimo de Mœbius, de fato, naquele mesmo 1963 em cujo nascia Blueberry, Giraud propõe nas páginas da revista “Hara-Kiri” os primeiros exemplos daquele gênio visionário que nos fará um ponto de referência para os desenhistas, mas também os diretores e cenógrafos de todo o mundo. Entre todos os autores de histórias em quadrinhos, de fato, Giraud é certamente aquele que mais teve sucesso no mundo dourado da película. O primeiro contato acontece ainda nas Bande Dessinée, quando Mœbius desenha (a partir de 1980, na revista “Metal Hurlant”, revista que o vê entre os fundadores), a mítica série do Incal com roteiro do diretor Jodorowsky. Mas já é tempo de cenografias e figurinos, como para “Tron” e, sobretudo, “Alien”. Inevitável, então, a transferência a Los Angeles por evidentes motivos cinematográficos, mesmo se o compromisso com Hollywood não lhe impediu de participar também às sagas da Marvel Comics, com “Surfista Prateado”. São passados mais de 30 anos de quando ilustrava enciclopédias, mas a fantasia, o empenho e, sobretudo, o gênio de Jean Giraud continuam a surpreender-nos, quais sejam as suas histórias.


PARA APRECIAR MAIS O CRESCER DO MUNDO de Blueberry, vale, porém, a pena seguir a evolução dos seus maus. Inicialmente, os malvados são tais em tudo redondo, caracterizados por arriscar de se tornar caricaturas. O major Bascom, de Forte Navajo, que continua a estrilar o seu ódio pelos índios se assemelha mais a Peter Sellers em “Dr. Fantástico” que a um verdadeiro oficial maníaco. “Se um daqueles vermes resiste, o matarei no local”, “Basta de comédia, velha serpente!”, “Não cederei nunca diante a um lúrido índio!”... Mas, por sorte, os sucessivos, pérfidos adversários de Blueberry tornam-se muito mais densos de lapidações, de humores, de claro-escuros.



A CAPACIDADE NARRATIVA DOS DOIS autores, por exemplo, doa uma densidade quase literária ao personagem de Luckner, em um par de histórias nas quais eles conseguem mesclar habilmente os clássicos argumentos western a uma verdadeira trama de suspense e a todos os temas clássicos da série. Aqui a bravura de Charlier e Giraud é tal que a metamorfose do mal é tão lenta por conceder-nos o tempo de apreciar um grande afresco do deserto americano e também o humor mais clássico da aventura western, como foi desde a cena do início de “A Mina do Alemão Perdido” (1969). “Venha para fora se é homem!”, diz um caçador de recompensas; “Se fosse idiota, atira melhor que eu!” responde Luckner, escondido atrás do balcão do sallon. “Apresento-me! Barão Werner Amadeus von Luckner, ex-aluno oficial da guarda imperial... Hoje, geólogo, mas também doutor em medicina e teologia...”. A alguém assim, que se apresenta com a barriga dilatada pela cerveja, vestido como um mendigo, mas com um distintíssimo monóculo encaixado diante do olho esquerdo, como não despertar toda a nossa simpatia? É inevitável para o leitor pensar que seja um pobre velho megalomaníaco, um vigarista de quatro tostões à procura de um sócio para uma inexistente mina de ouro... E não ao invés, como descobriremos mais adiante. É um lúcido, brutal, amoral assassino, incapaz da mínima piedade e compaixão pelos outros, velhaco e mentiroso, empregado infiel do verdadeiro barão, reduzido à condição de louco fantasma da Mesa do Cavalo Morto.

Abaixo: uma clássica paisagem do Oeste. No alto: um dos inimigos mais cruéis de Blueberry, o Barão Werner Amadeus von Luckner. Desenhos de Jean Giraud.



E TAMBÉM TREVOR, o oficial sulista, que aparece em “O Homem que Valia 500 Mil Dólares” (1971), é um credibilíssimo mau. Derrotado e amargurado, após a Guerra de Secessão se transformou em um bandido da estrada, permanecendo no íntimo um oficial superior. Rouba e assassina, mas sabe combater de cara aberta, chegando a suportar estoicamente a tortura para não trair o segredo do tesouro unionista que lhe foi confiado e que escondeu em vista de um improvável resgate do Sul. Os dois autores chegam a exibir-se em um contrapasso quase dantesco fazendo morrer tal arquétipo de oficial corajoso não pela mão do inimigo que o cerca, mas assassinado pelas costas por um esfarrapado mexicano que quer somente roubar-lhe as botas. Que bravos são Charlier e Giraud no fazer crescer ao melhor também essa figura sem por isso tolher espaço a Blueberry ou diminuir os ritmos aventurosos da narração!



MAS NÃO ACABOU, PORQUE É EM 1973 QUE APARECE o mau mais moderno, inalcançável na aparência porque de cem cabeças: o complô. Blueberry, constringido ao papel de fora-da-lei, luta para asseverar a sua inocência e recuperar a sua honra de soldado e ao mesmo tempo de salvar o presidente Grant de um péssimo fim: o leitor se acha assim às voltas com esse invisível e mortal inimigo que continuará a agir até às últimas histórias escritas por Charlier. No grande correr, saltar, perseguir-se do enredo iniciado com “O Fora-da-lei” (1973, precisamente), os maus se perdem, mas cada um deles é só um rosto do mesmo impiedoso adversário que demais vezes temos visto em ação no curso da história humana. O assassino de cara de anjo (disfarçado de senhorita é uma das mais belas mulheres desenhadas por Giraud para “Blueberry”) é um verdadeiro e próprio antecessor dos “serial killer” tão em moda hoje. O general Allister (que terminará os seus dias muito mais tarde, em “O Fim da Pista”, precisamente) é pavorosamente similar, nos seus delírios de poder, aos agaloados sem rosto do filme “JFK” de Oliver Stone (e não por nada o Charlier jornalista entrevistou para a TV tanto a viúva de Lee Oswald, como o assassino de Martin Luther King). Bum Bum Landsky, o criador de bombas louco inventado por Charlier e Giraud, seja, porém, apenas tracejado, não deixa de fazermos pensar em muitos dos seus atuais colegas, fanáticos assassinos de qualquer país e raça.



Blueberry lutando com o mortal inimigo Angel Face. Desenhos de Jean Giraud.



MAS SE ESSE CRESCIMENTO CONTÍNUO DE CHARLIER e Giraud se vê bem nos maus, entretanto bem o se vê nos dois bons amigos de Blueberry, MacClure e Red Neck. Nascidos como simples comparsas, característicos do velho filme western todos manjados e batidos, os dois espertalhões crescem a olhos vistos na consideração do leitor do tenente do nariz partido, porém não perdendo completamente os seus péssimos hábitos. O vício de beber de MacClure, por exemplo, leva muito o trio próximo à morte, mas mesmo quando a velha senhora é pertíssima é impossível dar um golpe no velho pard. Como não acusá-lo, se se faz enganar pela miragem do ouro lhe ofertado por Luckner? No fim das contas, bastante sóbrio, tem pressa em ajudar Blueberry a salvar a pele no “pueblo” de “O Espectro das Balas de Ouro” (1970). Mas é em “A Última Cartada”, na calma com a qual MacClure e Red Neck esperam para ser fuzilados, que Charlier e Giraud dão a medida do crescimento dos personagens. Nada de fanfarronices, nada de choros, nada de tentativas malucas: os dois transcorrem o tempo restante deles concedendo-se o luxo de uma última partida de pôquer, jogada a lances de milhares de dólares. Tanto, enfim, ninguém pagará a conta...


Acima: um chefe indígena. Abaixo: a semelhança entre Blueberry e Jean Paul Belmondo. Desenhos de Jean Giraud.

BLUEBERRY E BÉBEL

Alegre, despreocupado e rebelde, Jean-Paul Belmondo (apelidado Bébel) foi lançado por Claude Chabrol em “À double tour” (1969), mas a sua consagração a divo do novo cinema francês seria em “À bout de souffle” (1969 – N. C.: “O Acossado”) de Jean Luc Godard. A sua cara para socos e as suas indubitáveis capacidades atléticas o fizeram o protagonista ideal de filmes aventurosos e policiais: Belmondo nunca usou o dublê nas cenas perigosas, arriscando o osso do pescoço em muitas ocasiões. É um verdadeiro pecado que nunca tenha interpretado western. Mesmo se a injustiça foi reparada nas histórias em quadrinhos, visto que Charlier e Giraud usaram o seu rosto para o herói deles. E não se pode dizer que a semelhança não se nota!



JUNTOS ASSIM AO FIM da aventura e do trecho, eis o exemplo final da bravura dos nossos amigos franceses: se tem podido falar muitíssimo de Blueberry, porém citando-o pouco. Charlier e Giraud, como todos os verdadeiros narradores, souberam criar um mundo capaz de viver e crescer na mente do leitor caprichando atentamente nas suas histórias os detalhes históricos e paisagísticos e não focalizando a atenção somente sobre um único personagem. Por esse motivo, porventura, nas páginas da saga de Blueberry sopra tão forte o vento da aventura.


JUNTOS ASSIM AO FIM da aventura e do trecho, eis o exemplo final da bravura dos nossos amigos franceses: se tem podido falar muitíssimo de Blueberry, porém citando-o pouco. Charlier e Giraud, como todos os verdadeiros narradores, souberam criar um mundo capaz de viver e 
crescer na mente do leitor caprichando atentamente nas suas histórias os detalhes históricos e paisagísticos e não focalizando a atenção somente sobre um único personagem. Por esse motivo, porventura, nas páginas da saga de Blueberry sopra tão forte o vento da aventura.

Para terminar, uma homenagem a Tex realizada por Wilson (2), que tem desenhado as histórias de Blueberry após o abandono de Giraud. 

N. C.: 1) Retrato do Tenente Blueberry realizado por Peter Glay (Pierre Tabary). 2) Colin Wilson desenhou seis histórias da série "A Juventude de Blueberry".


Curiosidades

Tex Almanacco del West 1995. Editorial, Anual do Oeste, História em Quadrinhos, Dossiê.  
Editorial. O duelo continua. (...) Grande final com um herói em quadrinhos francês, o tenente Mike Blueberry, intrépido protagonista da epopéia western criado em 1963 pelos grandes Jean Michel Chalier e Jean Giraud. (...) Sergio Bonelli.
West Libri. O Oeste na livraria: pistolas, pradarias e lendas..., de Mauro Boselli.
West Film. Biografias mais ou menos verdadeiras, mulheres armadas e quatro risadas entre as pradarias. Esse é o anual, esses os filmes, de Maurizio Colombo.
Eroine del West. As heroínas do Oeste, de Andrea G. Pinketts.
Fumetti. Tex em “La carovana della paura”, de Claudio Nizzi e Victor de la Fuente. N.C.: “A Caravana do Medo”.
Dossiê. A vida e o cinema de Sam Peckinpah, de Maurizio Colombo.
Dossiê. Blueberry, de Marco Del Freo.
Formato: 16,0x20,8 cm. Páginas: 176, sem incluir capa e contracapa, com ilustrações em preto e branco e papel de boa qualidade.


Ficha Técnica

Almanacco del West 1995.
Sergio Bonelli Editore S.p.A., Milano, Itália.
Diretor responsável: Decio Canzio. Coordenação: Maria Baitelli. Projeto gráfico: Nico Zardo. Capa: Claudio Villa. Redação: Mauro Boselli, Maurizio Colombo, Luca Crovi, Giorgio Uberti. Paginação: Arcoquattro, Milano. Fotolito: GFB, Sesto S. G. (MI). Impressão: New Interlitho Italia S.p.A., Caleppio di Settala (MI). Distribuição: A&G Marco, Milano. Collana Almanacchi, N. 11 janeiro 1995, publicação bimestral. Printed in Italy. © Sergio Bonelli Editore 1995.


Afrânio Braga