sábado, 13 de junho de 2015

“O Restabelecimento de Blueberry” – Entrevista com Jean Giraud

Jean Giraud e Mike Blueberry.


O Restabelecimento de Blueberry
Entrevista com Jean Giraud
22 de julho de 2005



Eis, enfim, a conclusão, tão esperada, do ciclo Mister Blueberry, começado por Jean Giraud já há dez anos. O desafio foi imenso, pois se trata de suceder a Jean-Michel Charlier himself, e a ambição de nosso homem, à medida do desafio. Se seu Blueberry tinha, às vezes, desconcertado os leitores, visto que, pregado à cama durante três quartos da narrativa, não iam imaginar até onde esse ciclo anunciaria uma aposentadoria do elegante Mike. “Dust” é 68 páginas de poeira, de barulho, de furor e de ação, como nos grandes momentos da série. E nosso caro velho “Blueb’” é, doravante, sobre os pés, pois se restabelece do luto do falecimento de seu roteirista...


 

 

As capas dos cinco álbuns do ciclo Mister Blueberry, também chamado de ciclo Tombstone e de ciclo OK Corral.


Qual olhar você tem sobre o ciclo Mister Blueberry, agora que ele está acabado?

Eu tinha uma grande ambição para essa história, e eu não estou certo de ter atingido meu objetivo. Dito isso, se deve relativizar esse sentimento, pois toda minha carreira é feita sobre esse modo: uma ambição forte e um resultado um tanto abaixo da imagem original que eu tinha sonhado. Vocês poderiam quantificar essa decepção? ... Hum... ...isso oscila entre 10 e 90%. Dito isso, minha ambição é, sem dúvida, tão desenfreada que chega a 20% de satisfação, isso já não é mal! Como roteirista, é o mesmo esquema. Eu tinha construído a narrativa com antecedência em tudo, me deixando um espaço de liberdade. Eu não queria um roteiro demais “eficaz”, eu tinha desejo de deixar um lugar para as sequências de ambiente, os silêncios, onde não se passava nada de aparente... Eu não sei se eu tenho tido êxito. No final, me parece, um pouco, ter perdido de vista o aspecto iniciador do restabelecimento de Blueberry. Seriam necessárias 20 páginas a mais para melhor desenvolver?


Sua ambição não é mais forte, visto que você tem o trabalho de Charlier para referência?

Eu tenho considerado, sempre, o falecimento de Jean-Michel na sua parte roteirística. Ele tem falecido em um momento dobradiça da vida de Blueberry, ou seja, por ocasião do fim de um ciclo, e eu não poderia ignorar isso, quando eu tenho começado “Mister Blueberry”. Em contrapartida, a consequência, que eu tiro dessa história, é apenas o fato das ferramentas de interpretação, de cujas eu disponho, forçadamente ligadas ao estado de minha percepção e minha experiência pessoal. Eu não queria romper com o trabalho de Charlier, mas eu também não queria o reproduzir, a fim de não me chocar em um muro intransponível, que é o talento próprio de Charlier.


Você acha que existe uma quebra entre seu roteiro e os deles?

Existe, forçadamente, uma dívida à mudança de roteirista, mas, se vocês olharem bem, “Mister Blueberry” é a estrita consequência daquilo que Charlier havia colocado no lugar. No fim de “Arizona Love”, Blueberry apercebe-se que a única coisa que resiste às suas qualidades de homem de ação é o coração de uma mulher. O projeto de vida que ele oferece a Chihuahua Pearl é muito frágil face às ambições dessa mulher extraordinária. Se, até ali, ele tem conduzido tanto de ações heroicas, era sob o golpe de uma pressão exterior; e, ali, pela primeira vez em sua vida, ele toma seu destino na mão e seu projeto não está à altura da mulher que ele deseja. Chihuahua é demais ambiciosa para se resignar a uma vida de proprietária de terras, mesmo com o homem que ela ama. Blueberry é forte, visto que ele é capaz de enfrentar um exército, mas ele é incapaz de construir uma vida de casal? Por outro lado, Mike Steve, fazendeiro e casado, se sai do esquema criado, no seu tempo, por Jean-Michel Charlier, e assina a sentença de morte da série.


Deve ser impossível fazer a perda de um personagem tão forte quanto Chihuahua. Eu imagino que ele cruzará com ela de novo.

Sem vender o pavio, eu já posso dizer a vocês que a noite de amor deles tem deixado vestígios, se vocês perceberem isso que eu quero dizer...


Blueberry por Gir (Jean Giraud), 1996.


A entender você falar assim de Blueberry, nós podemos se perguntar qual lugar ele tem em sua vida.

É um parceiro virtual. Para um jogo, no qual eu invisto ao máximo.


Ele habita você enquanto isso?

Sim, mas tudo isso que eu faço é sempre sustentado por uma grande curiosidade. Então é normal que eu tenha enviado ele a ir muito longe na narrativa de sua vida. Pode-se aproximar meu procedimento daquele de um escritor que, criando os personagens, imagina-lhes uma vida futura tanto quanto uma vida passada, e tudo isso unicamente para justificar suas reações. É somente por esse procedimento que um personagem pode se colocar a viver. E, desde que um criador, qual quer que seja seu modo de expressão, a um personagem que se coloca a viver, ele deve ser generoso com ele.


É isso que Blueberry é: um parceiro que você, às vezes, tem decepcionado em suas reações?

Oh! Sim, certamente. Qual louco! Durante todo o período Charlier, ele é terrivelmente alienado pelo contexto no qual ele tem sido criado. Naquela época, o herói de HQ devia bater contra os ataques exteriores, mas nunca contra ele mesmo. Ele é muito boy scout e um tanto psicorrígido em sua maneira de pegar de frente seus inimigos. Sem a compaixão do roteirista, que tem feito um herói, ele teria fracassado a maioria de seus estratagemas e nunca teria sido o Blueberry vencedor que se conhece. Mesmo se ele tentasse sobreviver e salvar sua pele, ele não se ouve verdadeiramente. É somente nesse último ciclo, onde eu o mostro passivo sobre sua cama de convalescença, que ele começa a se interrogar sobre sua vida. E, pela primeira vez, ele não resiste, mesmo se nós procurássemos matá-lo, isso mostra bem a desordem na qual ele se encontra.


No seu entender, um personagem nunca escapa completamente a seu criador, pois é quando você o retoma em mão que ele se reaproxima mais de você.

Isso não é totalmente verdade. O herói é sempre o representante dos arquétipos da sociedade contemporânea, que eles sejam de narração ou sobre a representação do bem e do mal. No momento onde Blueberry tem sido criado, essas ideias eram muito codificadas e muito rígidas. Vejam Tintin ou Spirou. Hoje, se vê aparecer esquemas muito mais complexos de heróis, que são o resultado de uma evolução do olhar de nossa sociedade sobre si mesma. Pode-se dizer que a geração Pilote, de certa maneira, tem parido a fórceps a HQ francesa para ajudá-la a sair dessas representações. Os personagens procedentes de séries de aventuras, de hoje, têm muito mais profundidade que Blueberry em seus primórdios; e mesmo mais de filosofia e de cultura. É por isso que eu ponho sobre o trabalho de Charlier um olhar muito respeitoso e que, em piscadela à continuidade de seu trabalho, eu tenho introduzido esse jornalista, John-Meredith Campbell (com as mesmas iniciais que Jean-Michel Charlier), encarregado de reportar para seu jornal uma visão do Oeste, conforme a ideia que fazem seus leitores.


O companheiro desse jornalista, o jovem Parker, não lembra, quanto a Charlier, o jovem Giraud iniciando sua carreira em “Fort Navajo”?

Eu não estou me representado conscientemente e eu confesso que é a primeira vez que alguém me diz isso. Mas Parker é, como indica seu nome, um homem para quem tudo passa pelo coração. Esse encontro é para ele uma iniciação. Então sim, é verdade, existe uma relação...


Você pensa ter desconcertado seus leitores pregando Blueberry à cama?

Sim, quando se descobre ele, se é desorientado, mas, diminuindo suas capacidades físicas, eu o conduzi a tornar-se ainda mais heroico que antes, sem ter que dar um lance eternamente sobre os perigos que o ameaçavam do exterior.


Cinco álbuns em dez anos. Você tem reencontrado um ritmo de produção muito sustentado.

Fazia muito tempo que eu não tinha desenhado tanto Blueberry. Mas eu me dou conta também que se lançar em um longo projeto é um trabalho de homem jovem. A partir de certa idade, se começa a colocar as questões sobre sua capacidade em empreender as obras de longo prazo.


Você tem dúvidas sobre seu desejo?

Não, mas todos os desenhistas experientes dirão isso a vocês, se sente o refluxo da energia. Quando eu era mais jovem, eu me perguntava como, sob pretexto da idade, se poderia abdicar o desenho e perder o feeling! Pronto! Hoje, eu tenho minha resposta. Tenta-se sempre fazer o seu melhor, mas, um dia, percebe-se que esse “melhor” é de pior em pior.


O quê é isso que você chama um desenho “não formidável”?

Um desenho deve se sonhar antes de se desenhar, se deve sentir um apetite feroz em encontrar as maneiras inéditas de colocar aquilo que se quer fazer ver... ...mas quando o sonho desintegra-se, ei, bem, se tem um desenho “não formidável”.


É sua busca?

Parece-me que todos os desenhistas que sabem bater o imaginário de modo durável são os autores que trabalham ferozmente e não renunciam nunca face às dificuldades a representar o mundo.


Você tem, no entanto, uma constância fenomenal a propósito de Blueberry, que você desenha desde mais de 40 anos.

Sim, é verdade e eu me deixo ir ao pessimismo, mas, quando eu tenho visto o álbum “Dust” impresso, eu tenho, apesar de tudo, tranquilizado; antes, eu o acho, no final, não mal. Portanto, eu posso assegurar a vocês que eu estava muito angustiado e isso tem durado até ao último momento, notavelmente durante a colocação em cor com Scarlett.


Você nunca tinha conhecido esse sentimento?

... Sim, certamente! No fundo, sempre eu tenho sido mais ou menos. Eu estou nesse estado de dúvidas e de angústia para cada álbum! Somente agora, e eu coloco tudo isso na conta da idade. Eu tenho medo de perder em qualidade de performance e de desejo. Vai ser necessário que eu repita as aulas de perspectiva!


Você falou de um ciclo dedicado ao restabelecimento de Blueberry. Ei-lo sobre os pés. Por conseguinte, ele está preparado para partir a outras aventuras?

Certamente! ... A questão agora é “quando”! Mas sempre eu posso pedir-lhe a resposta no próximo álbum de “Inside Moebius”!


Christelle & Bertrand Pissavy-Yvernault

Fonte: Dargaud Éditeur, Paris, França.

Interview Giraud Jean «La guérison de Blueberry» © Christelle & Bertrand Pissavy-Yvernault, Dargaud Éditeur 2005

N. C.: As imagens expostas, na postagem do blog Blueberry, uma Lenda do Oeste, não constam na entrevista publicada por Dargaud Éditeur.


Imagens: Forum officiel des Éditions Dargaud Éditeur: Jean Giraud e Blueberry. Dargaud Éditeur: as capas dos cinco álbuns do ciclo Mister Blueberry, também chamado de ciclo Tombstone e de ciclo OK Corral. Stardom Éditeur: Blueberry por Gir (Jean Giraud), 1996.


Estojo “Mister Blueberry. Le Cycle OK Corral” em minha BDteca/gibiteca.


Afrânio Braga


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